O Primeiro Desrespeito


Tem desrespeitos - e não são poucos - que rapidamente viram hábito, sob o nome de um "é assim que eu sou" que nada tem a ver com personalidade ou amor-próprio, mas mostram unicamente a indisponibilidade em abrir-se para enxergar o outro e tudo o que ele vem trazer à relação simplesmente sendo quem é. São portas lacradas que nem mesmo quando batemos, se abrem. São tapas na cara à distância que não querem conciliar nem unir, mas segregar e dominar. Podem chegar muito diplomaticamente com mil justificativas e discursos outros, mas, na real, não são nada mais que isto.
Por essas e outras, gostei demais do texto da Stella Florence (assim como diversos outros em seu muitíssimo bem cuidado blog), que colo abaixo. Seu título: O Primeiro Desrespeito.



"Me diga uma coisa: ao refletir sobre o término de um romance desastroso, você já conseguiu, alguma vez, identificar o momento exato em que a coisa começou a degringolar? Você descobriu quando aconteceu o primeiro desrespeito? Aquele que degenerou em outros até pôr fim à relação?

Recentemente aconteceu algo curioso comigo: a partir de uma atitude da minha filha percebi qual foi a gênese do fim de um romance meu.

Foi assim: Olívia havia esquecido um livro no hall do prédio e um dos porteiros o entregou a mim. Abri a primeira página e percebi que ela não havia colocado seu nome nele, por isso, quando ela chegou da escola, a alertei: “Querida, sempre escreva seu nome no topo da primeira página dos seus livros. Caso aconteça...”. Minha filha então me cortou com um “Tá-tá-tá-tá!” que não foi motivado por uma gagueira súbita, mas pela irritação com meu conselho. Fiquei em silêncio e saí do seu quarto, mas, no corredor, estanquei. Não, eu não poderia deixar de me colocar claramente contra aquele irritadiço “Tá-tá-tá-tá!”. Voltei ao seu quarto.

- Meu amor, eu estou querendo te ajudar. Eu não gostei da maneira como você reagiu ao meu conselho. Se você não concorda, diga “eu não concordo com você, mamãe” e explique suas razões. Eu jamais disse ou diria “Tá-tá-tá-tá!” para você e gostaria que você nunca mais usasse esse tom ao conversar comigo.

Minha filha tinha então 9 anos. Naquele momento, talvez eu tenha interrompido no nascedouro um comportamento que poderia degenerar numa adolescente que berra com a própria mãe (gritar é algo que eu considero inaceitável e repulsivo, seja em que relação for).

Foi aí que me lembrei de uma noite em que li ao meu namorado da época uma cartinha na qual eu havia organizado minhas ideias sobre algo que me incomodava no relacionamento (escrever é meu elemento). Eu queria mostrar como me sentia e, com ele, encontrar uma maneira de resolver o assunto. No entanto, assim que terminei de lê-la, sua resposta foi: “Eu não tenho paciência para estar alguém que vem com cartinha: se vai ser assim, é melhor a gente parar por aqui”.

Fiquei triste e me calei por supor que eu havia exposto uma necessidade minha de um modo que o incomodou e que talvez eu pudesse voltar à questão de outra forma, em outra ocasião. A verdade, porém, foi que eu passei por cima de uma evidência: naquela noite (e em muitas outras que vieram depois) ele ignorou minhas necessidades e desrespeitou minha dor. Aquela foi a gênese do desrespeito que, entre outras coisas, culminou com o fim da relação alguns meses depois.

É importantíssimo estar com os olhos bem abertos para perceber a primeira tentativa (e a segunda, a terceira, etc.) do outro em ignorar nosso desejo, de passar solenemente por cima de nós, de estabelecer uma relação em que não há acordo entre dois, mas a imposição da vontade de um, uma relação cuja base se torna o desrespeito. Naquela noite, eu deveria ter dito: “Se não há espaço para que ambos entremos num acordo, se eu não posso ter voz, se a parte que me cabe nesse relacionamento é obedecer, então é melhor pararmos por aqui mesmo”. Hoje é exatamente isso o que eu faria. E foi exatamente isso o que fiz com minha filha. Eu sei que serão necessárias ainda muitas outras conversas desse tipo, mas, ao menos, agora estou de olhos bem abertos." 


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