A gente decide


Esta crônica de Lya Luft instantâneamente me fez sentir aquele desejo característico provocado pelos textos de grande idenficação: a vontade de tê-lo escrito.
Releio, e, quanto mais releio, mais enxergo nela uma canção. Como não sou compositora, posto-a na esperança de que algum talento se habilite e faça jus à sua poesia!

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No dia dos seus 102 anos, uma adorável matriarca está sentada junto à mesa de sua cozinha, rodeada de filhas e amigas. Ela corta os quiabos que serão preparados e servidos mais tarde aos visitantes, como de costume. Entrevistada, diz ao jornalista: "A vida, a gente é que decide. Eu escolhi a felicidade."

A aniversariante, dona Canô, mãe de Bethânia, minha irmã querida, naturalmente não quis dizer que "escolher a felicidade" é viver sem problemas, sem dramas pessoais ou as dores do mundo. Nem quer dizer ser irresponsável, eternamente infantil. Ao contrário, a entrevistada falou em "decidir" e "escolher".

Apesar de fatalidades como a doença e a morte, o desemprego, as perdas amorosas, a falta de dinheiro essencial à dignidade, podemos decidir que tudo fica como está ou vai melhorar, dentro do que podemos. Posso optar por me sentir injustiçada, ficando amarga e sombria, posso escolher acreditar no ser humano e em alguma coisa maior do que toda nossa humana circunstância: posso buscar sempre alguma claridade, e colaborar com ela. Dentro de minhas limitações pessoais e de minha condição individual, eu faço diferença, todos fazemos.

Desse início pessoal, passo ao mais geral: leio que 40% dos nossos jovens e crianças vivem abaixo da linha da pobreza; que o desemprego é uma calamidade, a violência cresce a cada dia e o analfabetismo não diminui; que crianças continuam, aos milhares e milhares, brincando no barro feito de terra e esgoto. Leio, vejo e sei que milhares e milhares de velhos vivem em condições sub-humanas, pois sua aposentadoria é miserável, o serviço de saúde pública também, morre-se em corredores de hospitais ou em filas de postos de saúde, onde médicos exaustos e pessimamente pagos fazem mais do que podem.

Não vou recitar a ladainha de que as circunstâncias não justificam euforia nem ufanismo simplesmente porque nós não decidimos algo melhor do que isso que escrevi acima, e todo o resto que qualquer um conhece - e apesar disso continuamos deitando a cabeça no travesseiro toda noite e dormindo quem sabe até bem.

Tenho medo do ufanismo: ele pode ser burro e cego. Olimpíada no Brasil, Copa do Mundo no Brasil, tudo bem: mas eu preferia que antes disso a gente tivesse resolvido os gravíssimos e tristes problemas, tão dramáticos, de comida, saúde, educação, moradia, decência e dignidade de boa parte do povo brasileiro que agora samba e celebra porque teremos Copa, teremos Olimpíada, teremos festa.

Sei que este não é um artigo simpático. Certamente não é alegrinho. Realmente ele trata do que não decidimos, ou decidimos mal, ou decidimos não decidir, como, por exemplo, exigir líderes mais sensatos, mais presentes, mais realistas, mais dignos em todos os níveis. Podíamos decidir ser mais respeitados, enquanto povo, mais olhados enquanto gente, mais seguros e mais protegidos enquanto sociedade.

Ou isso a gente não decide porque nem sabe das coisas, pois não se informa, não sabe ler, se sabe ler não costuma, nem o jornal esquecido no banco do ônibus. Onde o povo carrega doença e dor, descrença e desalento, mas também, aqui e ali, leva um jornal para saber onde afinal vivemos, em quem afinal podemos acreditar, e o que afinal deveríamos esperar. Indagados, os mais desassistidos dirão que Deus é quem sabe, Deus decide, a quem ama Deus faz sofrer - frase de imensurável crueldade.

Ou será melhor nem saber, nem aprender a ler, nem pegar a folha de jornal, nem ouvir o noticioso no radinho de pilha. Basta saber que sempre há em algum canto motivo para um breve ou longo carnaval, celebrando alguma coisa que possivelmente não vai encher nem o nosso bolso nem a barriga de nossos filhos, nem construir uma casa decente, nem botar esgoto, nem cuidar da nossa saúde, nem amparar nossos velhos, nem coisa nenhuma que seja forte, firme, boa e real. Porque, infelizmente, por aqui ainda decidimos pouco, e poucas vezes decidimos bem.
Não porque Deus quis assim, mas porque a gente nem ao menos sabe por onde começar.


[publicada na revista Veja de 21 de outubro de 2009]

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Comentários

  1. Sem dúvidas amiga Bia, essas coisas acontecem mesmo...quantas pessoas compram jornal apenas para acompanhar os capítulos da novela das oito e nem ao menos sabem os problemas sociais que seu próprio estado está passando...
    Que haja um pouco de bom senso à todos então.

    Bom final de semana!!!

    Beijos.

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  2. BIA, não se preocupe que o problema não foram os convites pro FB, foi uma alfinetada doída que tomei e acabei depositando no post todo meu mau humor. Depois de pronto, um tempinho depois quis apagar, mas assim como Dona Canô fez algumas escolha na vida eu também o fiz, rs... escolhi ser honesto com meus momentos hehe. Sempre fico impressionado com a beleza e organização dos seus blogs. Tá lindo isso, bjão. ah, e desculpe o postzinho marreta, mas... fotopalavra é fotopalavra, hehe. bjão

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  3. Oi, querida,

    Assino embaixo, reconhecendo firma. Texto de uma lucidez que busco a cada dia. Chego lá!!!

    Beijão.

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  4. É Bia, texto este tão dramático quanto a realidade do nosso mundo. Brasileiro às vezes parece que gosta de ilusão, principalmente se junto tiver futebol. Mas do que seria feita a vida, se não fossem os sonhos? Claro que é bem fácil dizer isso quando não se é o protagonista da miséria e de tantos outros problemas graves, e eu verdadeiramente sofro ao ver tanta gente, tão humana quanto nós, sofrendo tantas mazelas. Mas tenho visto também que o sofrimento de cada um nem sempre é proporcional ao mal que lhes assola. Tem gente que suporta tantas coisas, e ainda vive feliz, porque é capaz de sonhar e fazer a vida seguir com esperança. Que bom que Deus as deu esse dom maravilhoso. Vamos em frente! Bjão.

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  5. É um magnífico texto.
    Gostei de o ler, pois tem muitas verdades que não podemos esquecer.
    Obrigado pela partilha.
    Beijos.

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